quinta-feira, 15 de abril de 2010

Sensacional - Coluna da TPM


Dá licença, eu vou surtar

Uns permanecem no salto, no carão e na tarja preta, já eu surto para voltar a mim
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05.04.2010 | Texto por Antonia Pellegrino Ilustração André Letria

Eu gosto de acordar cedo em dias de semana. E durmo cedo à noite. E acordo e passo protetor solar e centrifugo um suco que leva cenoura, beterraba, maçã, laranja, gengibre e couve. E nado e faço ioga e tenho uma horta em casa. E faço a cama e bato a louça e tenho dois gatos e limpo a merda deles diariamente. E trabalho de domingo a domingo. E pago meus impostos. E sou (excelente) dona de casa. E não abuso de fritura nem de refrigerante. E cuido do meu marido, dos meus amigos, da minha família. E o mínimo que eu posso fazer pra equilibrar a minha economia existencial é surtar, pelo menos, de 15 em 15 dias. “Go get lost”, sair de mim para poder voltar a mim. Sem o surto, eu estaria doente, seria uma louca, uma chata, uma vândala, uma assassina. O surto é o equilíbrio. E, no entanto, cada vez menos é possível surtar.

Porque a gente vive em um mundo que herdou as liberdades conquistadas no século 20, mas escolheu viver no politicamente correto. Chaaaato. E ainda controlados por câmeras! Cada vez mais atravessados por redes de sociabilidade que não te permitem sumir da rede – como no caso Belchior. Em uma sociedade pouco experimental, da eficiência, do resultado, da performance. Fica todo mundo no salto, no carão, tomando tarja preta pra ver se não desaba. Um mundo que não tem vergonha de alardear que ser livre é escolher entre duas operadoras de celular… Um mundo que às vezes parece um resto de mundo.

Mas, ainda assim, existe o Carnaval. Aquela época em que o povo que consegue não surtar o ano todo resolve soltar os bichos. É aquela época em que o povo que surta às vezes sobe para a montanha e fica curtindo certa calmaria, depois volta queimado de sol e surta na quarta de cinzas. Mas, este ano, até o Carnaval foi controlado por câmeras que vigiavam os blocos de rua e exibiam as imagens nos sites e até no 
Jornal Nacional. Uma mulher dançando sozinha na rua virou manchete: “Mulher paga mico em Salvador”. É Carnaval, a mulher estava bêbada, dançando, sozinha, qual o problema? Por que isso é pagar mico? Isso é liberdade, isso é alegria, isso é não ligar para o que os outros vão dizer, isso é gostar de si. Isso é saúde.

Já não basta ter que fazer a unha toda semana? Ter que almejar a barriga sarada da rainha de bateria – que pagou R$ 150 mil para ficar daquele jeito, mas a gente nunca pensa nisso na hora de se comparar? Já não basta viver em cidades caóticas e subdesenvolvidas que oferecem uma qualidade de vida porcaria, mas são caras como Londres? Já não basta a Madonna arrecadando dinheiro no nosso país para uma ONG que divulga a cabala sabe-Deus-onde enquanto um monte de crianças brasileiras cheira crack na nossa esquina? Já não basta o assalto à mão armada? O povo roubando em Brasília? O politicamente correto? As drogas não terem qualidade e os fumantes fumarem espremidos fora dos restaurante? Já não basta? Chega. Dá licença, eu vou surtar.
Antonia Pellegrino, 30 anos, é roteirista e escritora. Seu e-mail: a.pellegrino@terra.com.br 

10 comentários:

Tatiane disse...

liiiiiiiiiindo o texto, inspirador!!

Carol Rocha disse...

Caramba sensacional esse texto !
Perfeito. Pra gente não se sentir tão só nem tão culpada com nossos surtos.

Beijos Amanda. =)
Adoro o blog.

p.s: sempre venho aqui mas só hoje tive coragem de comentar. hihi.

Andrea disse...

Amei amei amei.
Só queria que ela tivesse sido mais específica sobre "como surtar", porque acho que até isso a gente esqueceu.

Você compra camiseta que diz "Cansei de Ser Fashion", eu saio pra andar de bicicleta na chuva, tem gente toma todas, mas o que mais?

Agora fiquei querendo saber. Vou fazer um cross-post com esse seu.

E o mais engraçado você não sabe: Eu conheço a Antônia da infância. Inclusive passei reveillon com a mãe dela no Rio esse ano :)

marinafavato disse...

Surtando! hahaha

fernando selau disse...

tudo bem verdade! (:

Natália (Teca) disse...

Adorei!!!! Tô precisando surtar, imediatamente!!! rs

Amanda, sempre venho por aqui e quase não comento, mas queria dizer que acho seu blog do "C******!!" ( Já comecei a surtar!!!! kkkkk)
Bjus

Du Balaio disse...

Carol, Teca, que bom que vcs estao sempre aqui. Comentar é um simples detalhe, né verdade? E a gente tem que fazer somente qdo sente vontade mesmo!

Deia, nao acredito que vc conhece ela, que menina chique vc é...é essa família de artistas!!!

Marina, para artistas maravilhosas como vc, surtar parece que nos deixa mais perto da poesia, né! Então fique à vontade!

Bjos a todos e bom finde!

Fernanda Belote disse...

Muito bom o texto, pena que o final estragou. Essa autora escrever que os fumantes terem que fumar fora dos restaurantes é um problema seríssimo. Ridículo!!
E ainda querer colocar esse "problema" ao lado da corrupção no país, querendo igualar um problema realmente sério com uma b****.
Melhor lei que foi inventada no Estado de São Paulo!!
SURTEIII heheh
Adoro seu blog!! Parabéns!!! bjus

Du Balaio disse...

Fernanda, super concordo. Se vc reparar, o negrito no último parágrafo foi eu que fiz e ele vai até uma determinada parte que nao inclui esta dos fumantes, pq tbm achei nada a ver, mas enfim...respeito à obra original né!

Bjos e obrigada pelo comentário.

Aline Aguiar e Saravah Produções disse...

Só acho que deveria escolher melhor as palavras e respeitar Brasília. Os políticos que atuam aqui, vêem de todas as partes do Brasil. Não é o povo de Brasília que rouba, são determinados políticos. Há que se ter cuidado ao generalizar, principalmente quando o assunto é política. É essa banalização da política, tipo "todo político é igual" todo político rouba" que contribui para que essas pessoas se instalem e se perpetuem no poder. E não podemos esquecer que cada estado tem o seu legislativo e cada município também tem o seu.

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